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Por que aprender algoritmos ainda importa na era da IA?

  • Foto do escritor: Tiago Primo
    Tiago Primo
  • 11 de mar.
  • 4 min de leitura


Enquanto a IA escreve código sozinha, o que nos resta aprender sobre algoritmos? Talvez tudo — se quisermos pensar, e não apenas executar.


Vivemos uma virada de era. As linhas de código, por tanto tempo tratadas como a base da programação, já não precisam mais nascer dos dedos de quem programa. Com a ascensão da inteligência artificial generativa, a lógica por trás das máquinas começa a ser escrita… pelas próprias máquinas.

Nesse cenário, é natural perguntar: ainda faz sentido ensinar algoritmos? A resposta, paradoxalmente, é sim — mais do que nunca. Mas talvez devamos mudar a pergunta. Não se trata mais de “aprender a programar” no sentido tradicional, mas sim (e mais do que nunca) de aprender a pensar algoritmicamente, a estruturar raciocínios com clareza, e a conversar com as máquinas com profundidade, consciência e direção.


Algoritmos como forma de pensar


Muito antes de serem traduzidos em código, os algoritmos são representações estruturadas de pensamento. Quando ensinamos algoritmos, não estamos apenas formando futuros programadores — estamos exercitando e desenvolvendo habilidades cognitivas fundamentais para a vida no século XXI.

De acordo com teorias cognitivas (exemplos pode ser observados em pesquisadores como Piaget e Vygotsky), a aprendizagem significativa depende da capacidade de representar, organizar e manipular ideias. Os algoritmos, por sua natureza sequencial, lógica e estruturada, são poderosos instrumentos de desenvolvimento cognitivo, especialmente nas seguintes dimensões:

  • Raciocínio lógico e tomada de decisão: pensar em condições, consequências e alternativas.

  • Decomposição e abstração: quebrar um problema em partes compreensíveis.

  • Pensamento iterativo: testar, refinar, melhorar, pensar sobre o próprio pensamento.

  • Causalidade e sequência: entender a ordem dos acontecimentos e seus efeitos.

  • Comunicação estruturada: formular ideias com clareza e lógica.


Uma mudança de mentalidade: do modelo tradicional ao modelo mediado por IA


A IA não elimina o ensino de algoritmos. Ela transforma o foco. Ao invés de codificadores manuais, formamos pensadores computacionais capazes de interagir criticamente com sistemas inteligentes.



Redesenhando o início: como ensinar algoritmos agora?

Se existe um equívoco no ensino de programação, foi o de restringi-la ao campo da computação. Durante muito tempo, falar em algoritmos era sinônimo de “coisa de programador”. Mas isso está mudando — e precisa mudar com mais força e velocidade.

Hoje, mais do que nunca, compreender algoritmos é compreender um novo alfabeto da resolução de problemas. Estamos cercados por sistemas automatizados que tomam decisões por nós — e muitos dos desafios mais urgentes do mundo não devem ser resolvidos apenas por engenheiros e ciêntistas da computação.

Imaginem serem resolvidos por médicos, biólogos, professores, urbanistas, artistas — todos com domínio mínimo de pensamento algorítmico.


Algoritmos não são só código — são formas de raciocinar o mundo

O algoritmo, nesse novo contexto, não é o produto final. Ele é a espinha dorsal da solução: a forma que o pensamento toma quando precisa ser executado de forma sistemática, testável e adaptável.

Imagine um arquiteto que precisa automatizar o cálculo de luz natural. Ou um agricultor prevendo pragas com dados climáticos. Ou um professor reorganizando conteúdos com base no ritmo da turma.

Todos estão criando algoritmos. Mesmo que não programem.

Democratizar os algoritmos é democratizar o poder de criar

Durante décadas, a computação foi domínio técnico. Mas isso esta acabando. Com a popularização das IAs, das linguagens acessíveis e das ferramentas visuais, qualquer pessoa pode aprender a expressar sua lógica em termos computacionais.

O que isso significa?

Significa que a computação não é mais uma "especialização" — é uma nova forma de letramento.

Assim como a escrita nos tornou autores de ideias, os algoritmos nos tornam autores de soluções.

Um caminho sendo explorado por um professor pesquisador.

Para o educador, o desafio não é formar programadores. É formar pessoas capazes de pensar, propor e dialogar com as tecnologias que as cercam.

Aqui está uma proposta de jornada ( para o primeiro semestre de 2025 ):

Eu narrarei o raciocínio

Começarei com a linguagem natural. Pedirei aos meus alunos que expliquem tarefas simples, como fazer um café ou usar o transporte público. Em seguida, simularei um “robô literal”, que executará as instruções exatamente como forem dadas. Isso revelará, de forma prática, a importância da clareza, da ordem e da lógica no pensamento.

Eu modelarei o pensamento com linguagens acessíveis

Introduzirei linguagens como o Portugol Studio, Python ou blocos visuais (como o Scratch), não como um fim, mas como ferramentas para representar o raciocínio dos alunos. O código será apenas a forma — o pensamento, o verdadeiro conteúdo.

Por exemplo, proporei a criação de um algoritmo para calcular médias. Depois, sugerirei que adaptem o código a contextos mais complexos, com bônus, cortes ou critérios de aprovação, convidando-os a refletir sobre as decisões pedagógicas embutidas na lógica.

Eu usarei a IA como colaboradora, não como bengala

Permitirei o uso de ferramentas como o ChatGPT para gerar soluções. No entanto, incentivarei a análise crítica: a resposta estará correta? clara? poderá ser melhorada? Com isso, os alunos assumirão o papel de curadores e analistas, e não apenas de executores.

Eu incentivarei a criação de soluções reais

Proporei que desenvolvam sistemas simples para resolver problemas concretos — na escola, em casa ou na comunidade. A IA poderá ajudar, mas reforçarei sempre que a lógica, o propósito e a criatividade continuarão sendo responsabilidades nossas, humanas.


Para onde vamos a partir daqui?

Ensinar algoritmos não é mais ensinar comandos. É ensinar a pensar, a decidir, a construir, a depurar — não só códigos, mas ideias, caminhos, futuros.

A IA nos desafia a ir além do que é mecânico. Ela tira de nós o que era tarefa repetitiva, para que possamos focar naquilo que é essencialmente humano: a capacidade de imaginar soluções e estruturar pensamento com propósito.

Aprender algoritmos é, hoje, um ato de autonomia intelectual. Um passo para que o humano não seja apenas usuário de máquinas, mas coautor do mundo que elas estão ajudando a construir.



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